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Racista e política, “Operação Xangô” é revista 100 anos depois

02/02/2012

No dia 01 de fevereiro de 1912, Maceió viveu uma noite de terror com invasão e depredação de templos religiosos

Escrito por: Christiane Marcondes

 

 

No dia 01 de fevereiro de 1912, Maceió viveu uma noite de terror com invasão e depredação de templos religiosos e espancamento de negros e adeptos do candomblé. Vandalismos do gênero eram comuns no país e tinham como objetivo demarcar o território das elites, que combateram violentamente a expressão da cultura afro nas ruas. Nos bastidores dessa luta, as elites também faziam articulações políticas.

 


Mesmo ilegais, os negros, que formavam a maioria da classe trabalhadora, continuaram com seus ritos e cantos, resistindo bravamente aos ataques, ainda que, muitas vezes, recuando e deslocando-se para longe dos centros urbanos.

E é a esta força de resistência que a nação brasileira deve hoje a riqueza de sua produção cultural em todos os campos da arte. O país reconhece e há quem reveja esses atos, caso do governo de Alagoas que nesta quarta (1º/2) divulgou nota oficial com um pedido de perdão a todas as comunidades de terreiros alagoanas que enfrentaram as atrocidades do dia 1º de fevereiro de 1912.

O gesto não redime a culpa, não apaga as feridas do passado nem conforta, mas serviu para a reconstituição do episódio e para a sua inserção na história da cidade considerada, na época, como uma das mais "negras" do país. Pesquisadores e historiadores narram aqui a verdade dos fatos.


Uma noite diferente das outras

Há cem anos no centro de Maceió, às vésperas do Carnaval, uma massa de populares, liderada por veteranos de guerra e políticos, invadiu, depredou e queimou os principais terreiros de Xangô da cidade, espancando líderes e pais de santo dos cultos afros. Considerada um dos mais emblemáticos casos de racismo e intolerância religiosa do Brasil, a noite fatídica ficou conhecida como "O Quebra de Xangô".

O movimento foi organizado por integrantes da Liga dos Republicanos Combatentes em Maceió, sob a liderança do sargento do Exército Manoel da Paz, veterano da guerra de Canudos, na Bahia. "Muitos foram pegos de surpresa e apanharam pelas ruas até chegar à delegacia, na calada da noite. Outros tiveram a oportunidade de fugir para estados como Bahia, Pernambuco e Sergipe", assegura o professor de História e pesquisador Célio Rodrigues, o "Pai Célio", um dos grandes difusores da religião de matriz africana no Estado.

Denominado Operação Xangô, o movimento tinha um forte viés político com o objetivo de afastar do poder o então governador do Estado, Euclides Malta, que já administrava Alagoas por 12 anos seguidos e era considerado um amigo dos líderes religiosos massacrados.
"Foi uma perseguição ao governador Euclides Malta, que tinha ligação com os terreiros e havia recebido até o título de papa do xangô alagoano, o Soba. O interessante é que Euclides era um fervoroso católico", conta o historiador, médico e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), Fernando Gomes.

De acordo com Gomes, o episódio do Quebra de Xangô teve grande importância para apressar a renúncia de Euclides Malta, que aconteceu em 13 de março de 1912. "Em 12 de julho de 1912, Clodoaldo Fonseca, figura de relevo nos quadros do Exército e primo-irmão de Hermes da Fonseca, é empossado governador, juntamente com o vice José Fernandes de Barros Lima", completa o vice-presidente do IHGAL.

Imprensa golpista

Na época do Quebra, o movimento que desencadeou a postura intolerante contra a religião de matriz africana contou com o apoio da imprensa oposicionista, notadamente o Jornal de Alagoas. Nos trechos de seus artigos e matérias, termos pejorativos sempre eram direcionados ao governador por este se relacionar com os xangôs.

Na série de matérias intituladas "Bruxaria", publicada nos dias consequentes ao episódio, a suposta relação de Euclides Malta com os xangôs denota a mãe de santo Tia Marcelina como sua "feiticeira" protetora.

Segundo as referidas reportagens, o "nefasto governo" de Euclides Malta e as ditas "casas de feitiçaria barata" encontravam-se extremamente difundidas pela cidade de Maceió e se relacionavam "na mais estreita afinidade". De acordo com o jornal, "sabia-se que a grande força em que o "inepto oligarca" apoiava o seu governo era o xangô e, com essa confiança no fetiche ignorante, mantinha em completa debandada todos os outros poderes orgânicos do Estado", diz um trecho da publicação em sua edição de 4 de fevereiro.

Tia Marcelina, líder e mártir

É notável a descrição de cunho pejorativo de um suposto ritual relatado pelo Jornal de Alagoas na época: "Na casa da Tia Marcelina, a mais frequentada pelo Sr. Euclides e os seus amigos, (em culto) realizado próximo às novas eleições, Tia Marcelina teria pressentido a vitória do adversário de Euclides Malta.

Ela preparou a sessão, de acordo com o chefe, e, às 8 horas mais ou menos, o Soba (espécie de chefe de tribo) entrou nessa casa, em uma das ruas mais esconsas da Levada, acompanhado de um dos seus áulicos, que bem conhecemos. Os trabalhos já haviam principiado e a negra mãe de santo, modulando sorrisos de megera, olhares esgazeados de víbora saciada, correu com a mão o reposteiro de uma saleta contígua e lá ficou o 'Ogum-taió' da Praça dos Martírios, guardado às vistas dos seus irmãos e do pessoal que na rua avidamente olhava as danças e os requebros da Tia Marcelina".

Tia Marcelina, segundo os historiadores, foi a fundadora do candomblé em Alagoas e a então mais famosa mãe de santo do Estado, tida como espécie de mentora espiritual do governador Euclides Malta. De acordo com os relatos, ela teria resistido à invasão de seu terreiro e recebido golpes de sabre – espécie de espada – enquanto lutava contra o ataque. A líder negra não resistiu e morreu meses depois.

com agências

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